O relógio ainda marcava poucos minutos após o nascimento.
Enquanto a equipe terminava os primeiros cuidados, aquela mãe só conseguia olhar para o filho pela primeira vez.
Ele ainda estava quentinho, com o cheiro característico do nascimento, e foi colocado delicadamente sobre seu peito.
Instintivamente, o bebê começou a movimentar a cabeça. Abriu a boca, levou as mãozinhas ao rosto, empurrou lentamente o corpo e, alguns minutos depois, encontrou o mamilo.
Sem que ninguém o ensinasse.
Foi ali que aconteceu a primeira mamada.
A mãe chorava de emoção.
E, sem perceber, ela acabava de participar de um dos momentos mais importantes para a saúde do seu filho.
Poucas pessoas imaginam que os primeiros 60 minutos após o nascimento podem influenciar o sucesso da amamentação, reduzir complicações e fortalecer o vínculo entre mãe e bebê.
Essa primeira hora é tão importante que recebeu um nome especial: A Hora de Ouro.
O que é a Hora de Ouro?
Chamamos de Hora de Ouro o primeiro período após o nascimento em que o bebê permanece em contato pele a pele com a mãe e, sempre que possível, inicia a amamentação ainda na sala de parto.
Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde, essa prática deve ser incentivada sempre que mãe e bebê apresentem boas condições clínicas.
O bebê já
nasce sabendo mamar?
Uma das coisas mais impressionantes da natureza é que muitos recém-nascidos saudáveis possuem reflexos que facilitam esse primeiro contato com a mama.
Quando permanecem sobre o tórax materno, vários bebês conseguem:
- movimentar lentamente o corpo;
- localizar a mama pelo cheiro;
- procurar o mamilo;
- iniciar espontaneamente a sucção.
Esse comportamento é conhecido como breast crawl (ou “caminhada ao peito”) e demonstra como mãe e bebê estão biologicamente preparados para esse encontro.
Claro que nem todos os bebês conseguem fazer isso sozinhos. Alguns precisarão de ajuda da equipe de saúde, principalmente prematuros, recém-nascidos sonolentos ou filhos de mães submetidas a determinadas medicações durante o parto.
Por que essa primeira mamada faz tanta diferença?
Muitas pessoas imaginam que o bebê mama logo após nascer apenas porque está com fome.
Na realidade, os benefícios vão muito além da alimentação.
1. Estimula a produção do leite
Quando o bebê começa a sugar, ocorre um estímulo importante para a liberação de dois hormônios fundamentais:
- Prolactina, responsável pela produção do leite;
- Ocitocina, responsável pela ejeção do leite.
Quanto mais cedo essa estimulação acontece, maiores são as chances de uma boa instalação da lactação.
2. O bebê recebe o colostro
Nos primeiros dias após o parto, a mama produz o colostro.
Embora muitas mães se assustem porque ele é produzido em pequena quantidade, essa é exatamente a quantidade que o recém-nascido necessita.
O colostro é extremamente rico em:
- anticorpos;
- proteínas;
- fatores imunológicos;
- vitaminas;
- células de defesa.
Por isso, ele costuma ser chamado de primeira vacina do bebê.
3. Fortalece o vínculo entre mãe e filho
Durante o contato pele a pele e a primeira mamada, mãe e bebê liberam grandes quantidades de ocitocina.
Além de favorecer a saída do leite, esse hormônio fortalece o vínculo afetivo, aumenta a sensação de bem-estar e ajuda a mãe a se sentir mais segura nos primeiros momentos da maternidade.
4. Ajuda o bebê a se adaptar ao mundo
O nascimento representa uma mudança enorme.
Em poucos minutos, o bebê precisa aprender a respirar, manter a temperatura corporal e adaptar seu organismo à vida fora do útero.
O contato pele a pele ajuda nesse processo porque contribui para:
- manutenção da temperatura;
- estabilização da frequência cardíaca;
- melhor controle da respiração;
- redução do estresse;
- diminuição do choro.
5. Aumenta as chances de uma amamentação duradoura
Diversos estudos mostram que iniciar a amamentação ainda na primeira hora de vida aumenta a probabilidade de manter o aleitamento materno exclusivo durante os primeiros meses.
Isso acontece porque esse primeiro contato facilita a pega correta, estimula a produção de leite e aumenta a confiança da mãe.
E se meu bebê não conseguir mamar logo após nascer?
Nem sempre isso significa que existe algum problema.
Existem situações em que a primeira mamada precisa ser adiada, como:
- parto com necessidade de cuidados intensivos ao recém-nascido;
- prematuridade;
- dificuldades respiratórias;
- algumas complicações maternas.
Nesses casos, a equipe médica irá priorizar a segurança da mãe e do bebê.
Assim que possível, o contato pele a pele e o início da amamentação devem ser estimulados.
Cesariana impede a primeira mamada?
Não.
Quando mãe e bebê estão clinicamente estáveis, a primeira mamada também pode acontecer após uma cesariana.
Cada vez mais maternidades têm adaptado seus protocolos para permitir o contato pele a pele ainda no centro cirúrgico.
A primeira mamada precisa ser perfeita?
Definitivamente, não.
Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes para as famílias.
Muitas mães ficam frustradas porque imaginam que o bebê nascerá mamando perfeitamente.
Mas a amamentação é um aprendizado para os dois.
Nos primeiros dias, é comum que:
- o bebê demore um pouco para conseguir uma boa pega;
- a mãe tenha dúvidas sobre posicionamento;
- algumas mamadas sejam mais curtas;
- seja necessário auxílio da equipe de saúde.
O importante é oferecer apoio, orientação e paciência.
Como a família pode ajudar?
A primeira hora de vida não é importante apenas para mãe e bebê.
O pai, companheiro(a) ou familiares também têm um papel fundamental.
Eles podem:
- proteger esse momento de interrupções desnecessárias;
- oferecer apoio emocional;
- tranquilizar a mãe;
- incentivar a amamentação sem pressão ou julgamentos;
Quando procurar ajuda?
Se houver dificuldade para iniciar a amamentação, não espere aparecerem dor intensa, fissuras ou perda importante de peso.
Uma avaliação precoce pode identificar problemas na pega, orientar o posicionamento do bebê e aumentar muito as chances de uma amamentação tranquila.
Quanto mais cedo essas dificuldades são corrigidas, melhores costumam ser os resultados.
Conclusão
A primeira hora de vida é muito mais do que um momento emocionante.
É uma oportunidade única para fortalecer o vínculo entre mãe e bebê, estimular a produção de leite, oferecer o colostro e aumentar as chances de sucesso da amamentação.
Nem sempre tudo acontece exatamente como o planejado, e isso não significa fracasso.
Cada nascimento tem sua história.
O mais importante é que mãe e bebê recebam acolhimento, orientação baseada em evidências e apoio para que a amamentação seja construída dia após dia.
Porque, muitas vezes, os primeiros 60 minutos representam apenas o início de uma relação que poderá trazer benefícios para toda a vida.
Dr Ronaldo Moura – Médico Pediatra – CRM-GO 21296/ RQE 14111
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