São duas da manhã.

A casa inteira está em silêncio, mas aquela mãe continua acordada, sentada na beirada da cama, tentando amamentar mais uma vez.

O bebê chorou há menos de uma hora. Mamou. Dormiu por alguns minutos. E agora parece sentir fome novamente.

Ela olha para o filho, depois para o peito, e pensa:

“Será que meu leite não sustenta?”
“Será que eu tenho pouco leite?”
“Será que vou precisar complementar?”

No dia seguinte, alguém da família comenta:
“Esse menino chora porque seu leite é fraco.”

E é exatamente nesse momento que muitas mães começam a desacreditar da própria capacidade de amamentar.

No consultório de pediatria aqui em Goiânia, essa talvez seja uma das dúvidas mais frequentes das mães de recém-nascidos. E a verdade é que, na maioria das vezes, o problema não é leite fraco.

Aliás, leite materno fraco simplesmente não existe.

O que existe é insegurança, cansaço, excesso de informações desencontradas e uma expectativa irreal de que amamentar deveria acontecer de forma automática e perfeita desde o primeiro dia.

Mas a amamentação é aprendida.
Pela mãe.
E pelo bebê.

Segundo o Ministério da Saúde e a Sociedade Brasileira de Pediatria, o leite materno é o alimento mais completo para o bebê nos primeiros seis meses de vida, sendo recomendado o aleitamento materno exclusivo até essa idade.

E existe um detalhe muito importante que poucas pessoas explicam para as mães:

o bebê não mama apenas por fome.

O peito também oferece:

  • acolhimento;
  • segurança;
  • conforto;
  • regulação emocional;
  • vínculo;
  • alívio da dor;
  • ajuda para dormir.

Por isso, principalmente nas primeiras semanas, é absolutamente normal que o recém-nascido queira mamar muitas vezes ao dia.

Isso não significa leite insuficiente.

Na verdade, quanto mais o bebê mama, mais leite o corpo produz. O próprio guia de aconselhamento em amamentação reforça que a produção do leite depende diretamente da retirada frequente do leite da mama.

“Mas meu bebê mama o tempo inteiro…”

Sim.
E isso pode ser normal.

Recém-nascidos possuem um estômago muito pequeno. O leite materno é facilmente digerido. Além disso, existem períodos chamados de “picos de crescimento”, em que o bebê aumenta naturalmente a frequência das mamadas para estimular maior produção de leite.

Muitas mães chegam ao consultório acreditando que o bebê “não enche” porque quer mamar em intervalos curtos.

Mas nem sempre um bebê que mama frequentemente está passando fome.

O que realmente precisa ser avaliado são sinais mais importantes, como:

  • ganho adequado de peso;
  • quantidade de fraldas molhadas;
  • sucção eficaz;
  • desenvolvimento do bebê;
  • pega correta.

Esses são parâmetros objetivos para avaliarmos se a amamentação está correta mas, não podemos descartar outras questões como o processo de conhecimento do bebê por parte de toda a família – sua personalidade, sua adaptação ao meio e as possíveis mudanças e ainda seu vínculo com a mãe. O colo e a sucção trazem muito conforto, paz e tranquilidade.

Existe a teoria da exterogestação que afirma que a gestação teria 12 meses ( baseado na observação do esqueleto humano ao longo da evolução da espécie humana que antes era mais ” largo” e quando a espécie passou a andar em pé ficou mais “estreita” e ainda na observação de que outros mamíferos tem gestações mais longas e tem filhotes mais independentes ao nascer) isso, em tese, explica porque o bebê precisa tanto de ambientes que simulam o útero, nos tres primeiros meses de vida – o colo e o peito é um ambiente favorável.

A pega correta muda tudo na amamentação

 

Grande parte das dificuldades na amamentação começa na pega inadequada.

Às vezes a mãe acredita que tem pouco leite, quando na verdade o bebê não está conseguindo retirar leite adequadamente do peito.

E isso gera um ciclo difícil:

  • o bebê mama mal;
  • não esvazia a mama;
  • a produção diminui;
  • a mãe sente insegurança;
  • surge a complementação precoce;
  • o bebê passa a mamar menos no peito;
  • a produção cai ainda mais.

Por isso, observar a pega do bebê é fundamental.

Segundo o guia, uma pega adequada acontece quando:

  • a boca do bebê está bem aberta;
  • os lábios ficam virados para fora;
  • o queixo encosta na mama;
  • o bebê abocanha boa parte da aréola, e não apenas o mamilo.Resultado de imagem para pega correta

Quando a pega está errada, a amamentação pode causar:

  • dor;
  • fissuras;
  • mamilos machucados;
  • “leite empedrado”;
  • mastite;
  • dificuldade no ganho de peso do bebê.

E aqui existe algo importante que toda mãe deveria ouvir:

amamentar pode trazer desconforto nos primeiros dias, mas não deve ser uma experiência de dor intensa e sofrimento constante.

Dor persistente é sinal de que algo precisa ser avaliado.

“Meu peito está empedrado”: o que é o ingurgitamento mamário?

Outra situação muito comum no pós-parto é o chamado “leite empedrado”. Nesse caso a mama muito endurecida dificulta ainda mais a pega e portanto, não sacia o bebe ( que se cansa ou se esforça muito pra mamar)

A mãe sente:

  • mama endurecida;
  • dor;
  • calor;
  • dificuldade para o bebê pegar o peito;
  • sensação de peito muito cheio.

O nome técnico é ingurgitamento mamário.

E ele costuma acontecer quando:

  • há atraso no início da amamentação;
  • o bebê não consegue esvaziar bem a mama;
  • as mamadas acontecem em intervalos muito longos;
  • existe pega incorreta.

Nesses casos, algumas medidas ajudam bastante:

  • mamadas frequentes;
  • melhora da pega;
  • massagens suaves;
  • retirada manual de um pouco de leite antes da mamada;
  • compressas mornas antes da mamada e frias após.

Mastite: quando a dor merece atenção médica

Algumas mães acreditam que febre e dor intensa na mama fazem “parte do processo”.

Mas isso pode ser mastite. Nesse caso a inflamação associada a fissuras pode ter causado uma infecção na mama.

A mastite é uma inflamação da mama que pode causar:

  • vermelhidão;
  • febre;
  • dor forte;
  • mal-estar;
  • endurecimento localizado.

Em muitos casos, o tratamento precisa de avaliação médica e uso de antibióticos, e quanto mais cedo ele começa, menores as chances de complicações.

E existe um detalhe importante:
na maioria das vezes, a mãe NÃO precisa parar de amamentar durante a mastite.

O emocional da mãe interfere na amamentação?

Muito. E esse é um assunto pouco falado.

A produção e a saída do leite dependem da ação de hormônios, especialmente a ocitocina. A dor intensa, ansiedade, estresse, vergonha e insegurança podem dificultar temporariamente o reflexo de saída do leite.

Por isso, a amamentação não depende apenas da mãe.

Ela depende da rede de apoio.

Depende de quem ajuda nas tarefas da casa.
De quem acolhe sem julgar.
De quem oferece água enquanto ela amamenta.
De quem diz:
“Você está indo bem.”

Amamentar é biologia.
Mas também é emoção.

Então quando procurar ajuda?

Você deve procurar avaliação com pediatra ou consultora de amamentação quando:

  • o bebê perde muito peso;
  • existe dificuldade importante na pega;
  • há dor intensa;
  • surgem fissuras;
  • o bebê parece não se satisfazer nunca;
  • o bebê faz pouco xixi;
  • existe febre ou vermelhidão na mama;
  • a mãe sente sofrimento emocional importante durante a amamentação.

Quanto mais cedo as dificuldades são identificadas, mais fácil costuma ser corrigir.

A amamentação não precisa ser perfeita

Talvez essa seja a principal mensagem.

Existe uma pressão enorme para que a maternidade seja intuitiva.
Como se toda mulher “nascesse sabendo”.

Mas muitas mães nunca seguraram um recém-nascido antes de terem o próprio filho no colo.

Por isso, informação correta, acolhimento e acompanhamento fazem diferença.

No meu consultório de pediatria em Goiânia, vejo diariamente mães que chegam exaustas, inseguras e se sentindo culpadas… quando, na verdade, só precisavam de orientação adequada e apoio.

A amamentação não precisa ser um teste de sofrimento.

Ela deve ser construída com cuidado, escuta e acompanhamento.

E nenhuma mãe deveria passar por isso sozinha.

Dr. Ronaldo Moura – CRM-GO 21296/ RQE 14111
Pediatra em Goiânia
Atendimento particular presencial e online para acompanhamento de recém-nascidos, amamentação e desenvolvimento infantil.