O seu peito não está cheio de leite. Nos primeiros dias após o parto, é comum a mama ficar quente, dura e pesada como uma pedra. A maioria das mães acha queAna olhava para o bebê dormindo em seus braços quando começou a chorar.

Ele tinha apenas dois dias de vida.

“Doutor, meu leite ainda não desceu.”

Ela já tinha ouvido da vizinha que isso deveria acontecer logo após o parto.

A sogra dizia que o bebê estava passando fome.

Uma amiga sugeriu comprar uma lata de fórmula “só até o leite descer”.

Enquanto isso, Ana olhava para o próprio peito e pensava que talvez seu corpo não fosse capaz de alimentar seu filho.

Essa cena acontece diariamente com milhares de mães.

E, na maioria das vezes, o que elas estão vivendo é absolutamente normal.

A chamada “descida do leite”, também conhecida como apojadura, é um processo fisiológico esperado nos primeiros dias após o nascimento. Saber como ela acontece pode diminuir a ansiedade, evitar suplementações desnecessárias e aumentar as chances de uma amamentação bem-sucedida.


O que significa “o leite descer”?

ebook protocolo AMDurante a gravidez, as mamas já começam a se preparar para produzir leite.

Entretanto, o primeiro leite produzido não é o leite “branco” que muitas pessoas imaginam.

Nos primeiros dias, a mama produz o colostro.

O colostro é um leite mais espesso, amarelado e produzido em pequenas quantidades, mas extremamente rico em anticorpos, proteínas e fatores de defesa. Essa pequena quantidade é suficiente para atender às necessidades do recém-nascido, cujo estômago ainda é muito pequeno.

A chamada “descida do leite” acontece quando ocorre um aumento importante da produção de leite, tornando as mamas mais cheias e o leite com aspecto mais esbranquiçado.

Essa mudança acontece graças à ação dos hormônios que entram em atividade após o parto, principalmente a prolactina e a ocitocina.


Quando o leite costuma descer?

Essa talvez seja a pergunta mais pesquisada pelas mães no Google.

Na maioria das mulheres, a apojadura acontece entre 48 e 72 horas após o parto, podendo ocorrer um pouco antes ou um pouco depois.

O próprio guia ressalta que, em algumas mulheres, a descida do leite pode ocorrer apenas alguns dias após o nascimento do bebê e que isso, isoladamente, não significa que exista algum problema.

Por isso, comparar-se com outras mães costuma gerar apenas ansiedade.

Cada organismo responde em um ritmo diferente.


Benefícios do Aleitamento Materno Exclusivo para o Lactente e para a NutrizO que acontece dentro da mama?

A produção de leite é controlada por um delicado equilíbrio hormonal.

Logo após o nascimento e a saída da placenta, ocorre uma queda importante dos hormônios da gestação, permitindo que outros dois hormônios assumam o protagonismo:

Prolactina: o hormônio que produz o leite

A prolactina estimula as células produtoras de leite presentes nos alvéolos da mama.

Sempre que o bebê mama, novos estímulos são enviados ao cérebro para aumentar a produção de leite para as próximas mamadas.

Em outras palavras:

Quanto mais o bebê mama, maior tende a ser a produção de leite.


Ocitocina: o hormônio que faz o leite sair

Produzir leite não basta.

É preciso que esse leite consiga chegar até o bebê.

É exatamente essa a função da ocitocina.

Ela provoca a contração das células ao redor dos alvéolos, fazendo com que o leite percorra os ductos mamários até o mamilo. Esse processo é conhecido como reflexo de ejeção do leite.


Como saber se o leite está descendo?

Nem toda mãe percebe a apojadura da mesma forma.

Algumas mulheres apresentam sinais bastante evidentes.

Outras quase não percebem mudanças.

 Alguns sinais podem indicar que o reflexo da ocitocina está acontecendo:

  • aumento do volume das mamas;
  • sensação de pressão ou “fisgadas”;
  • vazamento espontâneo de leite;
  • saída de leite na mama que o bebê não está mamando;
  • sede súbita durante a mamada;
  • contrações uterinas, especialmente nos primeiros dias após o parto.

Todos esses sinais são considerados fisiológicos.


O estresse pode atrapalhar a descida do leite?

Sim.

E isso é muito importante.

A produção de leite depende da prolactina.

Mas a saída do leite depende da ocitocina.

O problema é que a ocitocina pode ser temporariamente inibida em situações como:

  • dor intensa;
  • ansiedade;
  • medo;
  • estresse;
  • vergonha;
  • insegurança;
  • uso de nicotina ou álcool.

Isso significa que uma mãe muito ansiosa pode produzir leite normalmente, mas ter mais dificuldade para que ele flua durante a mamada.

É por isso que acolhimento, descanso e apoio fazem tanta diferença nos primeiros dias.


O bebê precisa “esperar o leite descer”?

Não.

Essa é uma dúvida muito comum.

Enquanto a produção aumenta gradualmente, o bebê deve continuar mamando.

O colostro é suficiente para atender às necessidades da maioria dos recém-nascidos saudáveis.

Além disso, a sucção frequente é justamente o principal estímulo para que a produção aumente.

Quanto menos o bebê mama, menor tende a ser esse estímulo.

A sucção frequente contribui tanto para a descida do leite quanto para o ajuste da produção às necessidades do bebê.


O que pode atrasar a descida do leite?

Em algumas situações, a apojadura pode ocorrer um pouco mais tarde.

Entre os fatores associados estão:

  • pouca estimulação das mamas;
  • dificuldade na pega;
  • mamadas pouco frequentes;
  • separação entre mãe e bebê;
  • estresse intenso;
  • algumas condições clínicas maternas.

Por isso, sempre que houver dificuldade para amamentar, vale a pena buscar ajuda precocemente.

Os riscos do aleitamento cruzado: entenda por que só mãe deve amamentar filho - BBC News Brasil


Existe algo que ajuda o leite a descer?

Sim.

Embora não existam alimentos milagrosos, algumas atitudes têm respaldo científico.

Segundo o guia, ajudam a favorecer a ação da ocitocina:

  • permanecer em ambiente tranquilo;
  • sentir-se confortável durante a mamada;
  • olhar para o bebê;
  • tocar e sentir o cheiro do bebê;
  • manter contato próximo com ele;
  • estimular suavemente o mamilo antes da mamada;
  • receber apoio da família.

São medidas simples, mas que podem facilitar bastante esse processo.


E se o leite ainda não desceu?

Nem sempre isso significa que o bebê precisa imediatamente de fórmula.

Antes de qualquer decisão, é importante avaliar:

  • como está a pega;
  • se o bebê está mamando com frequência;
  • se existe perda excessiva de peso;
  • quantidade de fraldas molhadas;
  • exame físico do recém-nascido;
  • condições clínicas da mãe.

Cada caso deve ser analisado individualmente.

A suplementação pode ser necessária em algumas situações, mas nunca deve ser indicada apenas porque “o leite ainda não desceu”.


Quando procurar o pediatra?

Procure avaliação médica se:

  • o bebê apresenta dificuldade importante para mamar;
  • existe perda excessiva de peso;
  • há sinais de desidratação;
  • o bebê faz pouco xixi;
  • a mãe apresenta dor intensa, febre ou endurecimento importante das mamas;
  • persistem dúvidas sobre a produção de leite.

Quanto mais cedo essas dificuldades são identificadas, maiores são as chances de manter uma amamentação exclusiva e confortável.


Conclusão

A descida do leite é um processo natural, mas que acontece em tempos diferentes para cada mulher.

Na maioria das vezes, ela ocorre entre o segundo e o terceiro dia após o parto e depende principalmente da sucção frequente do bebê, da ação dos hormônios e de um ambiente acolhedor.

Se o leite ainda não “desceu”, isso não significa automaticamente que há pouco leite ou que a mãe não conseguirá amamentar.

Na verdade, os primeiros dias representam um período de adaptação entre mãe e bebê.

Com orientação adequada, apoio da família e acompanhamento do pediatra, a maioria das dificuldades pode ser superada.

Porque amamentar não é apenas produzir leite.

É construir, dia após dia, uma relação de confiança entre mãe e filho.

Dr Ronaldo Moura – Médico Pediatra – CRM-GO 21296/ RQE 14111 

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